Entre o tempo e o cuidado: quando a pressa desumaniza
- Daniella Souza
- 3 de abr.
- 2 min de leitura

Recentemente mudei-me para Curitiba, após uma vida inteira vivida no Norte do país. Como toda mudança geográfica, essa também é atravessada por deslocamentos simbólicos — modos de viver, de se relacionar e, sobretudo, de lidar com o tempo.
Aqui, o tempo parece ter outro estatuto. Pequenos atrasos são percebidos não apenas como imprevistos cotidianos, mas como sinais de desrespeito, quase como uma falha de caráter. Existe uma régua mais rígida, uma expectativa de precisão que, embora compreensível em certos contextos, pode facilmente escorregar para a intolerância.
Hoje vivi uma situação que me fez refletir profundamente sobre isso — e sobre algo ainda mais delicado: o cuidado em saúde.
Cheguei com seis minutos de atraso para um exame que nunca havia realizado antes. Um exame invasivo, que envolve estímulos elétricos no corpo. Sem explicações prévias suficientes, fui imediatamente submetida aos primeiros choques. Assustada, tentei compreender o procedimento, perguntar, me situar. As respostas vieram de forma curta, impaciente, como se minha dúvida fosse um incômodo.
A cada tentativa de elaborar o que estava acontecendo — de respirar, de me preparar — a possibilidade de desistência era colocada, não como acolhimento, mas quase como expulsão. Como se o tempo da técnica fosse mais legítimo do que o tempo da experiência humana.
Em determinado momento, já tomada pelo nervosismo, tentei expressar minha necessidade de um ritmo diferente, de um intervalo, de algum cuidado. A resposta que recebi foi direta: se eu queria paciência, deveria ter chegado no horário.
Ali, algo se rompe.
O atraso de seis minutos passou a justificar não apenas a impaciência, mas a suspensão de qualquer escuta. O cuidado deu lugar à correção. A relação terapêutica — que deveria se sustentar na confiança — foi atravessada por uma lógica punitiva.
Saí da sala não apenas sem concluir o exame, mas profundamente abalada. E, talvez o mais duro: com a sensação de ter sido colocada no lugar de “paciente difícil”, aquela que incomoda, que atrasa, que questiona.
Há algo de muito delicado — e perigoso — nessa posição de poder ocupada pelo saber médico. Quando não mediada pela ética do cuidado, ela pode facilmente se converter em uma forma sutil de violência. Uma violência que não grita, mas desautoriza; que não agride fisicamente, mas diminui, silencia e desloca o sujeito da sua própria experiência.
O mais paradoxal é que o acolhimento que não encontrei na consulta veio, inesperadamente, de outros pacientes. Pessoas que, assim como eu, conhecem na pele a vulnerabilidade de estar em um espaço de cuidado. Entre olhares e palavras, nos reconhecemos.
E isso diz muito.
Talvez estejamos, cada vez mais, aprendendo a nos apoiar não apenas nas instituições, mas uns nos outros — como uma forma de resistir à desumanização que, por vezes, se infiltra até nos espaços que deveriam nos proteger.
Fico pensando: que tipo de sociedade estamos construindo quando o tempo se sobrepõe ao cuidado? Quando a pontualidade vale mais do que a escuta? Quando o erro — humano, cotidiano — se torna justificativa para a perda da empatia?
Não se trata de desconsiderar a importância do tempo, mas de recolocá-lo em perspectiva. Afinal, em contextos de saúde, não lidamos apenas com agendas — lidamos com corpos, afetos, medos e histórias.
E isso exige mais do que precisão.
Exige presença.
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